
Mick Jagger, aos 80, ainda faz muitos pirarem com erotismo – 26/07/2023 – Ilustrada
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Quando tive a honra de apresentar o histórico show dos Rolling Stones em Copacabana, em fevereiro de 2006, não era só essa música que esperava ouvir. Era todo um repertório que saía daquela boca que, muito antes de virar um logotipo, já era a marca registrada do vocalista de uma das maiores bandas de todos os tempos.
Fique à vontade se quiser reescrever a hipérbole anterior no único, uma vez que, entre tantas que merecem estar nesse cânone do rock —Beatles, Pink Floyd, Led Zepellin, Sex Pistols, The Clash—, os Stones são os únicos que ainda podem exercitar a mesma magia nos palcos, sejam eles reais, sejam exclusivamente geração de nossa imaginação.
Encontrei o cantor pela primeira vez já no final dos anos 1990, numa entrevista rápida no cenário improvável de Miami, na Flórida. Improvável porque foi um choque de cultura encontrar a quintessência do charme britânico naquele cenário tão matizado de uma cidade que mistura partes iguais de sonho latino, ficção art déco e delírio tropical.
Alheio ao cenário, Mick Jagger entrou numa sala escura, dramaticamente iluminada para proteger aquele rosto célebre. Eu já o esperava num sofá e, antes mesmo de me apresentar, fui desmanchado por um sorriso que era metade automático, metade instintivo. Fiquei com a segunda metade na recordação, que me remeteu aos antigos clipes seus aos quais assistia na TV nos anos 1960.
Acessíveis no YouTube, essas performances antigas são preciosos registros de um artista que já sabia muito muito o valor da sensualidade. Elvis já havia feito isso alguns anos detrás, mas meio lábio de Mick Jagger sorrindo valia por milénio pélvis do rei do rock.
Gerações modernas de rappers assanhadas —e assanhados!— pagariam uma arcada dentária cravejada de diamantes para conseguir aquele efeito erótico supremo com o mínimo de esforço.
Foi com essa postura que ele se sentou à minha frente para a entrevista. A enésima de sua vida, provavelmente a décima só daquele dia, mas a primeira da minha —e ainda falaria com ele mais duas vezes.
Eu me senti totalmente confortável na presença de um ídolo multigeracional, quase me esquecendo de que qualquer um tinha o recta de pirar diante de um rosto uma vez que Mick Jagger.
O que terá vindo primeiro: a autoconfiança da sua sedução ou a naturalidade de sua núcleo cool? Desde suas primeiras aparições, com um rosto ainda jovem, até as mais recentes, já com as marcas que poderíamos prever, sempre houve uma certeza de que, uma vez que Rita Lee resumiria tão intuitivamente nos anos 1970, ele tinha prazer em ser quem ele era e estar onde ele estava.
Proprietário inteiro de qualquer cena, desbancando inclusive o carisma feroz de seu parceiro Keith Richards, Mick Jagger sempre dançou uma vez que se escorregasse pelo soalho. Esse não é nem o melhor verbo para definir os movimentos de suas pernas, mas é o melhor que posso encontrar, pegando emprestado do balé clássico —e traduzindo rapidamente— a sentença “glissade”.
Submetido pela música que jorra das próprias cordas vocais, o cantor sempre foi rabi em transcender a mais elaborada coreografia de TikTok para dar, com um punhado de rodopios, uma prelecção de uma vez que se expressar com o corpo.
Muito antes de viralizar e se tornar uma “trend”, aprendemos com Mick Jagger aquilo que uma genial campanha publicitária de dez anos detrás para uma bebida alcoólica sintetizou em slogan: não existe dança ruim.
Porquê não existe tempo ruim para um lorde às avessas da estirpe de Jagger. Escândalos, excessos, histerias. Dos píncaros da glória aos “cold turkeys”, ele sempre olhou para as câmeras com honestidade. Era, uma vez que esquecem a maioria das estrelas efêmeras, a única maneira de nos ocupar.
Por falar em conquistas, meus sinceros agradecimentos às Mariannes, Biancas, Jerrys, Carlas, Lucianas e, atualmente, Melanies que passaram pela vida do cantor e ajudaram a edificar sua aura de formosura, escracho e elegância.
Mick Jagger ainda é o sonho de tantas faixas etárias de fãs, que nutrem aquela simpatia pelo demônio, impermeáveis a obstáculos tolos uma vez que sua glória de pé insensível e, melhor, indiferentes aos anos que chegam. Porquê esses 80 anos celebrados agora por alguém que segue à procura de alguma satisfação, mas que de uma coisa tem certeza. Não pode ter sempre tudo o que quer.



