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A culpa é sua, Vinicius Jr.

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Sabe por que você Vini Jr. está sendo crucificado no altar da insensatez humana? Porque você é preto. Um preto, Vinicius, tem de ser subserviente, respeitar a jerarquia.  Sim, senhor. Sabe a história da Casagrande & Senzala? Você é da senzala. As pessoas, brancas, e até mesmo negros e negras em posição social privilegiada, têm um perceptível frisson quando expostas a situações assim.

A verdade, garoto, nua e crua, é que, muito além das reflexões éticas e culturais que têm se intensificado nos últimos anos, a deliberada, insana e reiterada cansaço racista e discriminatória de que você vem sendo vítima, representa a permanência de uma atitude abjeta que lamentavelmente não ocorre unicamente na Espanha, mas que vimos ser escancarada diariamente Brasil afora.

Ser preto em nosso país, Vinicius, é carregar a culpa na própria pele, porquê se ela fosse chancela inapagável que a associa à criminalidade, por sua vez, um dos ranços característicos da escravidão. É terrível. É o surreal impondo a abjeta face da estupidez humana. Mais triste e lamentoso ainda é   constatar que tal tipo de repulsa já não se manifesta de forma sub-reptícia, segregada em guetos.

Agora, ela chega ao incrível paroxismo que nos leva a compará-la com aquela geringonça científica que ficou conhecida porquê moto perpétuo, um sistema mecânico imaginário que não precisa de combustível ou robustez para continuar a movimentar um motor de maneira contínua e eterna.

Pode parecer uma conferência descabida, mas serve para ilustrar a premência urgente de vedar esse movimento obsceno e desprezível, antes que seja inevitável. Uma vez que fazê-lo? Eis a questão.

Já vimos que o exposição polido, a solicitação civilizada, as propostas de campanhas educacionais, zero disso tem funcionado. As ações devem ser sincronizadas. É preciso que as várias instâncias ligadas ao esporte, à cultura e à instrução desenvolvam programas, projetos e protocolos que funcionem simultaneamente, com severa e permanente vigilância. A mídia também deve fazer a sua secção. Por fim, estamos falando de torcedores de má índole, desumanos, intolerantes e criminosos, que só vão interromper esse moto perpétuo do racismo nojento quando sentirem punições severas e radicais.

Não parece coincidência que a subida da violência nos estádios de futebol tenha sido justamente na Inglaterra. Por fim, é o origem do futebol. Aparentemente, porém, não temos aprendido nem mesmo depois que os ingleses decidiram dar um basta aos “hooligans”, punindo clubes, levando para a ergástulo e afastando dos estádios de futebol os seus torcedores violentos. É inadmissível, repito, é inadmissível que, seja nas arenas esportivas ou em qualquer outra submissão de uso público, o preto continue carregando esse fardo de subserviência, porquê se tudo fosse motivo para lembrá-lo do seu lugar nessa desajustada graduação social em que o Brasil foi estruturado.


Ricardo Castilho é jurisconsulto e professor, pós-doutor em Recta pela USP e UFSC. Nasceu  em Piraju (SP) e atua em São Paulo.

 

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