
Memórias de Uma Ilha, de Caio Camargo: trabalho escafandrista
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O livro Memórias de uma Ilhéu de Caio Camargo é um reconhecimento do responsável à Ilhabela que acolheu seus ancestrais antes mesmo da vaga turística chegar, no tempo em que chamávamos as vilas e comunidades onde se reuniam pessoas, famílias e amigos de lugar.
por Paulo Atzingen (à Maria José Fazzini Cardial e Cecília Fazzini, com amizade)*
Caio fez um trabalho de escafandrista descendo ao coração do oceano azul que banha a antiga Villa Bella da Princeza e de lá retirando tesouros de velhas embarcações repletas de memórias afetivas, detalhes minimalistas de um paixão fraternal e maternal encontrado somente nas profundezas.
O livro é repleto de lembranças e saudades narradas por antigos moradores da ilhéu , entre eles Maria José Fazzini Cardial, avó de Caio.
Camargo teve o minucioso desvelo de reunir depoimentos de moradores da ilhéu dividindo sua obra em capítulos com o nome dos entrevistados: Kenzou Imakawa, Maria José Fazzini Cardial, Maria da Silva Pinto Albuquerque, Hélio Reale e um outro capítulo chamado Memoráveis com duas dezenas de depoimentos menores que os quatro iniciais.
“O que interessava em cada pessoa eram suas lembranças e, principalmente, uma vez que as mesmas foram contadas. A dramaticidade, a tristeza, a alegria, o carinho, que compunham a narrativa era o elemento que determinava a sua valia e, logo, o que deveria ser priorizado e transcrito para o livro“, escreve Caio na introdução de sua obra.

Caixa de madeira
Camargo explica nesta mesma lisura a motivação para fabricar esse documento histórico. “Vinha frequentemente visitar meus avós maternos em Ilhabela. Há um ano resolvi voltar as atenções à minha avó para reconhecer melhor sua história de vida. (…) ela me apresentou uma caixa de madeira, fechada com uma chave, feita pelo seu irmão quando ele estudava marcenaria. Ao abri-la percebi o carinho e o zelo que ela tinha por aquelas imagens. A cada foto manuseada, emergia um facto, uma história, um personagem, uma recordação “, escreve.
Narrativas foram as âncoras
A partir daí, Caio sai à procura de pessoas com idade de 80 anos ou mais para ouvir seus relatos. Uniu a essas narrativas fotografias que serviram uma vez que uma âncora à sequência de depoimentos de fatos levados pelo tempo. Fotos de barcos sendo artesanalmente construídos, casas emolduradas pela gente caiçara original, pessoas em trajes de sarau em uma alegria longínqua, irmãs em seus vestidinhos de domingo sentadas principalmente para uma foto quase apagada pelos anos.

Memórias mais que afetivas, memórias mais que históricas, memórias atemporais que derrubam com sua força telúrica qualquer projeto de urbanismo que violenta a identidade original de uma comunidade. Violenta a identidade mas não se torna réu, nem vai para a masmorra porque o processo de violência da identidade foi e está sendo assimilado de forma sutil por meio da força imposta pelo protótipo atual de desenvolvimento.
A obra tem uma vez que um de seus objetivos resgatar as histórias esquecidas e documentar para a posteridade a vida social de uma lugar que se transforma a cada dia, seja pela ocupação de espaços sem planejamento, seja pela desordem de leis ambientais não cumpridas, seja pela ganância do domínio territorial, seja pela preterição de políticas públicas e da zona de conforto de quem poderia efetivamente mudar a história.
“Os verdadeiros “filhos da terreno” dessa ilhéu, merecem ter suas histórias registradas para a evo”, escreve Caio ao final.

Naufrágio resgatado
A obra foi o resultado do Projeto realizado com o suporte do Governo de São Paulo, Intermeios- Lar de Artes e Livros e Proac – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e sua primeira edição é de 2011. Entre os naufrágios de tesouros, só agora pude contemplar tal riqueza e cá a exponho por meio de modesta resenha.
É evidente que um livro de memórias não pode mudar o curso da história de uma comunidade e de uma Ilhéu que tinha na pesca artesanal, na comida feita no fogão à lenha e na luz vinda da lamparina uma alegria que se completava em si mesma. Não, um livro de memórias não muda o curso da história, nem o horizonte. No entanto, tatua para sempre no coração de cada um que se doou – lembrando, falando, narrando, escrevendo, fotografando ou deixando-se fotografar (e mesmo para aqueles que o lêem), um estado perpétuo de felicidade por um tempo vivido que nunca voltará, ou que só será encontrado no fundo de um outro oceano, ou de um outro mundo muito longe daqui.
*Paulo Atzingen é jornalista e fundador do DIÁRIO DO TURISMO



