
Jogadora indígena do TO fecha com Ferroviária – 12/08/2023 – Esporte
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Jogando no meio de campo, ela defendia o time do Colégio E. Guilherme Dourado, do município de Araguaína, a 384 quilômetros de Palmas e a 300 de Tocantínia, terra natal da jovem e onde ela começou a jogar bola, ainda criança, em chão batido, com trechos de lama e campina.
Indígena da etnia Xerente, Ivanete começou a gostar de futebol acompanhando o pai. Paulo César Wawēkrurê Xerente, professor e cacique da aldeia Cachoeira, onde a família vive, chegou a sonhar em se tornar profissional, mas as dificuldades para manter contato com a família a longas distâncias, nos anos 1990, o fizeram ficar.
A filha tomou um caminho diferente. Com seu time em um quinto lugar histórico para as equipes de Tocantins no campeonato escolar, Ivanete chamou a atenção de uma captadora, com a proposta de um contrato para a base da Ferroviária SAF, em Araraquara, interior de São Paulo.
O contrato, válido por cinco anos, a colocou como uma das primeiras atletas indígenas a assinar profissionalmente com um clube de futebol feminino no país. A primeira na Ferroviária, segundo o clube.
“Futebol, para mim, é tudo hoje. Está presente em tudo na minha vida”, diz Xerente.
“Como pai, foi um momento único ver uma filha, como indígena, sendo uma das primeiras no Brasil, no futebol, a assinar um contrato. A ficha demorou para cair, para acreditar em tudo que ela estava vivendo”, conta o cacique Paulo César.
Desde maio no interior de São Paulo, a mais de 1.500 quilômetros de casa, a rotina da menina é ir à escola pela manhã, onde cursa o segundo ano do Ensino Médio, e aos treinos à tarde.
“O estudo está aliado ao esporte. A atleta só segue com a gente se continuar estudando, o que é exigência da Federação Paulista e da CBF [Confederação Brasileira de Futebol]. Eles solicitam os boletins das atletas, e a gente tem uma equipe multidisciplinar com responsáveis pela fiscalização do desempenho escolar”, explica Rafaela Esteves, coordenadora das categorias de formação do futebol feminino da Ferroviária.
Esteves conta que o clube justifica eventuais ausências junto à escola, mostra relatórios com súmulas dos jogos e faz acompanhamento, mantendo os pais que vivem longe a par do desempenho das filhas.
Pouco mais de um ano antes da ida para a Ferroviária, Xerente, como Ivanete é chamada, já tinha feito as malas pela primeira vez e trocado Tocantínia por Araguaína. Foi para o projeto 100 Limites, onde treinam as alunas do Colégio Estadual Guilherme Dourado. E o futebol passou a ser algo sério na sua vida.
O projeto começou com outro nome e voltado a atletas masculinos mas, depois da pandemia, o foco virou para o futebol feminino e atletas na categoria sub-18, conta Fraudneis Fiomare, um dos idealizadores. Foi assim que ele encontrou Ivanete.
Em Araguaína, a menina, lembra ele, conseguiu segurar a carga pesada de treinos e se destacou –tudo sem deixar a escola. O projeto já afastou uma atleta titular do time por não conciliar os dois.
“Esporte é transformação de vida. Cada uma delas twm uma história, no geral, muitas são muito humildes”, diz ele. “A gente tenta mostrar que o estudo é mais importante que a qualidade do futebol.”
Fraudneis foi secretário executivo de esportes e juventude do estado até fevereiro e conta com apoio do governo do estado no 100 Limites. O poder público ajuda em despesas de material e viagens, mas há ainda um gasto mensal de R$ 7.000 em alimentação que ele mesmo arca, quando não encontra patrocinadores.
“A gente disputa todas as competições com prêmios acima de R$ 5.000. O valor que ganhamos, dividimos a metade entre as jogadoras que foram campeãs e, com a outra parte, pagamos despesas. Só esse ano já conseguimos R$ 25 mil em sete competições”, calcula.
O pai de Ivanete, cacique Paulo César, acredita que o projeto foi um diferencial para que a filha encontrasse uma oportunidade, onde indígenas ainda são minoria rara.
“O que falta é oportunidade, grandes clubes garimparem mais no interior. O povo Xerente ama futebol, tanto que na comunidade temos seis campeonatos dentro de um ano. Termina numa região, já começa na outra. É muito forte o futebol amador aqui. Talento tem bastante, tem molecada boa de bola”, afirma.
Ele conta ainda que já viu a filha se tornar uma inspiração para crianças menores, que também sonham em ir mais longe no futebol e assistem aos vídeos de jogadas e gols dela.
“Tem muitos indígenas talentosos no futebol, que sonham em ser jogadores profissionais, como eu sonho. Eu me tornei uma inspiração para alguns, por chegar onde eu cheguei, porque é uma coisa nova”, avalia a jogadora.
“Aos poucos ela vai amadurecendo, crescendo, quem sabe até vestir a camisa da seleção brasileira”, torce o pai.
“Eu sinto que ela foi escolhida por Deus para levantar essa bandeira do futebol feminino e do futebol indígena. Se Deus quiser, é só o começo de muitos que vem aí”.



