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Falta de escola faz crianças serem expostas a sol e chuva

Moradores de Caraíva fizeram protesto e pediram ajuda às autoridades

As crianças e adolescentes do povoado de Caraíva, em Porto Seguro, estão tendo aulas a céu aberto depois que a única escola da região foi demolida e um novo espaço ainda não foi providenciado pela prefeitura. Na terça-feira (13), moradores interromperam a travessia das canoas para Velha Caraíva em protesto. Os pais reclamam que não há banheiro, água potável e nem merenda. A prefeitura diz que está buscando um prédio, que o mau tempo atrasou as obras e que as aulas ao ar livre foram planejadas.

Moradores contam que a Escola Municipal de Caraíva apresentava problemas graves na infraestrutura, como rachaduras, diversas goteiras e alagamentos, e precisava de reforma. No dia 28 de fevereiro, lideranças se reuniram com representantes da Secretaria da Educação para discutir o assunto e a prefeitura decidiu demolir o prédio para construir uma escola nova. As maquinas derrubaram as paredes em junho, mas a obra não está avançando.

Adolescentes buscam sombra para fugir do sol e do calor durante aulas (Foto: Acervo pessoal)

Estudantes e professores estão contando com a sorte para conseguir realizar às aulas. Nos dias de sol, o quadro e as carteiras são colocados em baixo da sombra das árvores, mas precisam ser mudados de local constantemente. Nos dias de chuva, os comerciantes ajudam oferecendo espaços de improviso para evitar que as crianças e adolescentes fiquem encharcados.

Os pais afirmam que faltou planejamento. A escola atende alunos da pré-escola ao nono ano. São 214 estudantes de Caraívas e povoados vizinhos. Com medo de represaria, os moradores da região pediram para não ser identificados, mas contam que a prefeitura não ofereceu solução.

“Eles não deram uma segunda opção de lugar para as aulas, a comunidade é que correu atrás. A gente conseguiu realocar as crianças em uma associação, na biblioteca e na casa de uma pessoa da vila. Só que nesse meio tempo o proprietário pediu a casa de volta. Então, as crianças estão sem aula e eles [prefeitura] não fazem e nem falam nada”, conta um morador.

Segundo as lideranças locais, o município sabia que a casa alugada pela comunidade para servir de escola teria que ser devolvida até o dia 30 de agosto, uma condição colocada pelo proprietário. No local funcionavam duas salas de aula.

“Uma semana antes do prazo encerrar, conseguimos uma reunião com a Secretaria da Educação. A prefeitura informou que estava ciente do prazo e que já tinha uma casa em vista para arrendar para a escola, mas o rapaz acabou se cansando, porque foi pedido uma série de documentos e o processo não avançava. A casa que tivemos que entregar no dia 30 de agosto foi alugada pela comunidade, era o Conselho Comunitário e Ambiental de Caraíva quem pagava o aluguel”, afirmou uma conselheira.

Agora, apenas a biblioteca está sendo usada como escola, mas como o espaço não comporta a quantidade de estudantes, parte dos alunos está sendo obrigada a assistir às aulas no meio da praça. Como não há banheiro, água potável e nem merenda escolar, as crianças mais jovens deixaram de frequentar a escola. A mãe de um menino contou que a situação é revoltante.

“O terreno onde ficava a escola está cercado por tapume e do lado de dentro não tem nada e nem ninguém trabalhando. A obra está parada. Isso é o que deixa a gente mais indignado, porque não temos ideia de quando a escola vai ficar pronta. Depois que eles souberam que a comunidade faria um protesto, disseram que mandariam um caminhão com material e trabalhadores, mas nada disso aconteceu”, conta a mulher.

Os moradores dizem que a prefeitura propôs que o ensino fosse híbrido, com parte das crianças em aulas presenciais e outra parte fazendo atividades remotas, em dias alternados da semana, mas os pais não concordam com essa medida. Em nota, eles afirmaram que “estudos já concluíram que os efeitos da interrupção das aulas presenciais sobre a educação das nossas crianças serão irreversíveis”.

No protesto da terça-feira (13), moradores se reuniram na beira do rio que dá acesso ao povoado. Os primeiros manifestantes começaram a chegar por volta das 5h. Com faixas, cartazes e tambores, eles entoaram palavras de ordem e pediram por mais atenção com a educação. A travessia das canoas foi interrompida. Eles prometem novas manifestações até que a situação seja resolvida.

Aula planejada
As imagens dos estudantes tendo aula no meio da praça, com quadros e carteiras no chão de areia, teve repercussão nas redes sociais. Diante das críticas, a Secretaria da Educação e a Secretaria da Infraestrutura e Obras Públicas de Porto Seguro emitiram uma nota conjunta em que afirmam que a ação foi planejada, teve o consentimento dos pais e que continuará acontecendo.

“As fotos de alunos em atividade ao ar livre, na vila de Caraíva, referem-se a aulas planejadas, com anuência de pais e da comunidade. Ação programada junto à equipe gestora, da escola, com previsão de continuar acontecendo”, traz a nota.

Em relação às críticas de que após a derrubada do prédio a obra não avançou, o município explica que houve atraso na entrega dos materiais e que as condições meteorológicas foram adversas, nos últimos 40 dias. “Os materiais de construção já chegaram e a obra segue seu curso normal”, lê-se na nota.

A prefeitura afirma também que está encontrando dificuldades para conseguir um espaço provisório para as aulas. “O prédio alternativo foi requerido pelo proprietário e, diante das dificuldades em encontrar outro imóvel, o município optou pelas aulas remotas, até que seja edificado o novo espaço”, conclui o texto.

O município não respondeu sobre a falta de banheiro, água potável e merenda escolar, denunciada pelos moradores. A vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Bahia (APLB) em Porto Seguro, Luciene Rodrigues, informou que a entidade está acompanhando o caso.

“Estamos falando de condições de trabalho. Essa situação era para ser algo provisório, para ser resolvida em um ou dois meses, mas não está sendo assim. Esse é um movimento da comunidade, mas se for necessário, daremos apoio”, afirma.

Ela contou que o sindicato participou das manifestações que aconteceram para discutir a demolição da antiga escola, há cerca de três meses, e destacou um ponto observado pela categoria:

“A antiga escola não dava conta da demanda e quando o projeto da nova escola foi apresentado, a quantidade de salas ainda era insuficiente para atender a todos os alunos. Pedimos que fosse feita uma nova análise do projeto para adequação. A gestão se comprometeu a fazer isso, mas não tivemos mais resposta”, explica.

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