
Morre Doris Monteiro, cantora que antecipou bossa novidade – 24/07/2023 – Ilustrada
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Com sua “voz pequena”, segundo ela mesma definia, cantando coisas “mais mexidinhas”, uma vez que lhe sugerira o compositor Billy Blanco, já cantava no estilo da bossa novidade em 1957, quando gravou “Mocinho Bonito”, de autoria de Blanco, a música mais tocada nas rádios brasileiras naquele ano. “O Encontro”, espetáculo com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes que marcou o início da bossa novidade, só aconteceria cinco anos depois.
Monteiro morreu de causas naturais, segundo um transmitido publicado no perfil da artista no Instagram. Ela tinha 88 anos e estava em sua morada no Rio de Janeiro. Ainda não foram divulgadas informações sobre o velório e o sepultamento.
A cantora estreou em 1949, aos 16 anos, na Rádio Vernáculo, no programa de imitações Papel Carbono, de Renato Murce. Em um tempo de vozeirões e arroubos de versão, o apresentador não soube sugerir uma cantora que a rapariga, com a sua voz peculiar, pudesse imitar. A mãe lembrou Lucienne Delyle, tradutor das delicadas canções francesas da estação. Foi mal, vencendo a competição com “Boléro”, de Pail Durand e Henru Contet, Monteiro passou de caloura a contratada pela Rádio Vernáculo, onde permaneceu por mais de 2 anos.
Seu primeiro disco, “Todamérica”, lançado em 1951, com a música “Se Você Se Importasse”, de Peterpan, fez um enorme sucesso. Jairo Severiano e Zuza Varão de Mello, no livro “A Música no Tempo” destacam a música uma vez que uma das seis mais representativas daquele ano.
Da Rádio Vernáculo, posteriormente uma breve passagem pela Rádio Guanabara, a cantora foi para a TV Tupi, onde permaneceu por mais sete anos. Na novidade emissora, perdeu o Adelina do nome e viveu seu culminância. Contratada pelo Copacabana Palace, cantava em galicismo e inglês.
Estreou no cinema em 1953, em “Agulha no Palheiro”, de Alex Viany. Faria mais sete filmes, incluindo o premiado “De Vento em Popa”, de Carlos Manga, lançado em 1957. Na TV Tupi, ganhou um programa com o seu nome. Depois, voltou para a Rádio Vernáculo.
Ao longo da curso, ela gravou mais de 60 álbuns de repertório, a maioria pela Odeon, e participou em coletâneas e reedições posteriores. Alguns de seus maiores sucessos, além de “Mocinho Bonito”, foram “Mudando de Conversa”, composta por Maurício Tapajós e Hermínio de Roble, “Conversa de Café”, de Noel Rosa, e “Dó-ré-mi”, de Fernando César e Nazareno de Brito.
Nascida no Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 1934, filha de Glória Monteiro Murta, portuguesa que trabalhava uma vez que empregada doméstica, Adelina Doris Monteiro nunca conheceu o pai biológico. Sua mãe pagava uma mulher para que cuidasse do bebê. Dona Augusta, amiga de Murta, queria que o par Ana Maria e Lázaro Cordeiro, também portugueses, adotassem a petiz, mas Ana Maria resistia.
Uma tarde, encontrando-a magrinha e desnutrida na morada onde era cuidada pela estranha, Dona Augusta pegou Monteiro, depositou a rapariga na leito de Ana Maria e sentenciou: “ou crias ou deixas morrer”. Ana Maria não só criou uma vez que virou folclore nos bastidores do rádio por estar o tempo todo acompanhando a filha que, ainda rapariga, despontava para o sucesso. “Fui eu que inseri a mãe no rádio brasílio. Eu era a rapariga com uma trança do lado esquerdo e a mãe do lado recta”, costumava expor Monteiro, rindo.
Oriente trecho do livro sobre a vida da cantora se encerra com a volta de Murta, a mãe biológica. Não tendo tido sucesso na tentativa de resgatá-la da mãe adotiva, mudou-se, com o marido, para a vizinhança. “Éramos todos amigos. Ela ainda me deu um irmão, e hoje tenho meus sobrinhos queridos”, dizia a cantora, referindo-se, com a maior naturalidade do mundo, à inusitada família portuguesa que reuniu a sua volta.
Seus romances seriam movimentados. O tálamo, aos 18 anos, com um playboy capixaba, tendo Chacrinha uma vez que paraninfo, foi cobertura da revista Manchete. Seis meses depois, ela estava separada. “Ele não prestava. Depois disso, tive namorados” contou em entrevista a Rodrigo Faour, em 2009.
Noticiou-se, em 1955, seu envolvimento com Alberto Bandeira, tenente da Aviação, detento da penitenciária Lemos Brito, onde Monteiro fora trovar. Bandeira, sentenciado por um caso de homicídio no Rio de Janeiro mas posteriormente tendo a sentença revogada, teria se enamorado pela cantora, que, embora negasse o namoro, o visitou algumas vezes na prisão.
O mais ruidoso dos seus romances, nunca confirmado por ela, ainda estava por vir. Em 1956, coroada Rainha do Rádio, a prelo creditou sua eleição a um pretenso envolvimento amoroso com Assis Chateaubriand, que ordenara a compra intempestiva de centenas de milhares de exemplares da Revista do Rádio, que equivaliam a votos no torneio.
Ruy Castro, no livro “A Noite do Meu Muito” justifica a ação de Chatô por seu interesse de que pela primeira vez a Rádio Tupi, emissora dos Associados que presidia, emplacasse uma vencedora no concurso. E acrescenta que não haveria lógica em o magnata esconder, se houvesse, um romance com uma das mulheres mais belas e desejadas da estação.
Em testemunho a Maria Luisa Hupfer para o livro “As Rainhas do Rádio”, a cantora minimizou não só o papel do jornalista no incidente, uma vez que também a valia do torneio: “Esse concurso não tinha o menor valor artístico”.
Monteiro não teve filhos. Na dezena de 1970 tornou a se matrimoniar, com o tecladista Ricardo Jr. “Ele tem um suingue espetacular, tocou com Erasmo, Maysa, Simonal”, contou a Tárik de Souza, em “Sambalanço, a Bossa que Dança”, da editora Kuarup. “Eu posso fazer a separação que eu quiser, que ele vem na minha.”
Juntos, apresentaram-se em importantes palcos do país. Em 1990, fizeram uma turnê pelo Japão, a invitação de Lisa Ono. Em 2009, Ricardo Jr. acompanhou Monteiro e Billy Blanco em um antológico reencontro dos dois precursores da bossa novidade, que excursionou por capitais do país.
O tálamo e a parceria artística duraram mais de 40 anos, só terminando com a morte do músico, em março de 2017. Em julho do mesmo ano, Monteiro voltou aos 83 anos, acompanhada pelo pianista João Cortez, ao palco do Beco das Garrafas, no Rio, para mais uma vez trovar, com sua voz enxurrada de ginga, os grandes sucessos de sua curso.



