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Com Isis Valverde no papel principal, ‘Ângela’ abre mostra competitiva do Festival de Gramado

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Igor Natusch, especial de Gramado

Longa-metragem que abriu, no sábado (12), a mostra competitiva do 51º Festival de Cinema de Gramado, Ângela é uma cinebiografia de Ângela Diniz, socialite que se tornou, em circunstâncias trágicas, um marco para a consolidação do movimento feminista brasileiro. O filme dirigido por Hugo Prata traz os últimos quatro meses de vida de Ângela (interpretada por Isis Valverde) e seu relacionamento com Doca Street (Gabriel Braga Nunes), até o trágico e brutal assassinato da socialite – mas prefere não se deter no rumoroso julgamento que se seguiu, concentrando o olhar no retrato de uma mulher a um só tempo intensa, melancólica e trágica.

 

“É a história dela, da Ângela, que nos interessava”, reforçou Hugo Prata, durante debate na Sociedade Recreio Gramadense neste domingo (13). “Quisemos evitar o período do julgamento, porque aquela era a história dos homens que foram contra ela. Às vezes as pessoas perdem a noção de que não foram anos (de relacionamento entre Ângela e Doca), tudo foi muito rápido, eles se conheceram em agosto (de 1976) e ele a matou no réveillon”. A roteirista Duda de Almeida reforça essa decisão. “Tomamos uma série de depoimentos de pessoas que conviveram com ela, e isso foi muito importante para entendermos quem foi a Ângela e podermos construir essa mulher em processo de ser aniquilada – pelo marido, pelo namorado, pela sociedade.”O longa-metragem, que deve ter estreia nos cinemas no próximo dia 31, traz na interpretação vibrante de Isis Valverde um dos seus pontos fortes. “Uma das pessoas com quem conversei (para a construção da personagem) me disse ‘ela (Ângela) é a pessoa com o sorriso mais triste que já conheci’. Aquilo bateu muito forte em mim, e fiquei pensando: como vou fazer para colocar isso na interpretação? Não quis fazer uma Ângela que sofre, então deixa de ser mimada, por exemplo, porque ela era mimada também. Quis uma Ângela por inteiro, que as pessoas pensassem ‘nossa, que chata’ e, logo na cena seguinte, dissessem ‘poxa, pobrezinha, quero dar um abraço nela'”, explicou.

Ângela Diniz foi assassinada pelo namorado Doca Street no último dia de 1976, com três tiros na cabeça e um na nuca. No julgamento que se seguiu, os advogados de Doca alegaram que o crime foi cometido “em legítima defesa da honra” e usaram aspectos da vida de Ângela, como os relacionamentos amorosos e o fato de ter aberto mão da guarda dos três filhos, para desacreditar sua pessoa. A primeira sentença foi leve, e Doca acabou liberado da prisão – o que motivou protestos de movimentos feministas em todo o País, levando a um novo tribunal e a ampliação da pena para 15 anos de cadeia.

A manhã de debates em Gramado trouxe também momentos de discussão sobre os curtas Yãmi-Yah-Pá, de Vladimir Seixas, e Deixa, de Mariana Jaspe, que abriu a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros. Ambos trazem em seu espírito a valorização de grupos e imaginários que buscam espaço na cinematografia nacional – o primeiro, trazendo uma distopia que se estrutura a partir da visão e da cosmogonia de povos originários, e o segundo com uma história de afeto entre pessoas negras, dirigida por uma mulher negra e distribuída por uma empresa (Borboletas Filmes) voltada à projeção de realizadores negros e negras.

Na ocasião, Vladimir Seixas revelou a intenção de transformar o argumento de Yãmi-Yah-Pá (Fim da Noite, na língua Tukano), que traz as memórias de uma indígena (interpretada por Rosa Peixoto) que sobrevive a um evento apocalíptico, em um longa-metragem. A ideia para a estreia de Seixas na ficção surgiu durante quatro viagens à Amazônia, visitando comunidades Munduruku em um projeto da Fiocruz. “Me ocorreu que a floresta é cheia de vida, e que seria natural a sobrevivência surgir de lá em um eventual apocalipse”, citou.

Deixa, por sua vez, traz Zezé Motta como protagonista, em uma história de afeto e despedidas envolvendo um casal negro com uma diferença significativa de idade. “Quando me convidaram para o papel, a Mariana (Jaspe, diretora) disse apenas que seria ‘a noite de despedida de um casal’. Só depois fui saber que ia contracenar com a Zezé”, disse o ator Dan Ferreira, que descreve o curta como “um filme, sobretudo, de amor”. “Acho que o filme tem esse olhar de não tratar (a diferença de idade) como determinante, de mostrar que é possível essa relação de afeto entre essas pessoas negras. O cinema tem esse poder de reflexão, de fazer alguém se sentir impactado e mudar de perspectiva.”

O 51º Festival de Cinema de Gramado continua na noite deste domingo, com a exibição de Tia Virgínia, longa de Fabio Meira que traz Vera Holtz, Arlete Salles e Louise Cardoso nos papeis principais. Também serão exibidos em competição os curtas-metragens A última vez que ouvi Deus chorar, de Marco Antônio Pereira, e Camaco, de Breno Alvarenga. Na sequência, ocorre a cerimônia de entrega dos Prêmios Assembleia Legislativa de Cinema Gaúcho, voltado a curtas produzidos no Rio Grande do Sul, além do Troféu Sirmar Antunes e dos prêmios Leonardo Machado e O Futuro Nos Une. 

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