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135 anos da Abolição da Escravatura

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O dia 13 de maio é uma data importante e histórica para o Brasil. No ano de 1888, foi assinada a Lei Áurea pela princesa Isabel, que aboliu a escravidão no país e libertou murado de 700 milénio escravos determinando o término de uma era de escravidão. Em 2023 completa 135 anos e o redactor Chico Fonseca traz uma reflexão importante sobre a ancestralidade do preto progénito de pessoas escravizadas.


A Força da Ancestralidade

Por: Chico Fonseca

Chegamos a Vila Verdejante no final da tarde. Era mês de abril, final dos anos 80. Fazia um friozinho gostoso. Depois de um dia inteiro dirigindo desde Lisboa, finalmente estávamos perto do nosso tramontana. No hotel, falei com a gerente sobre o motivo da nossa viagem: procura pela ancestralidade.

– E qual é a sua família? – perguntou-me a moça, muito educada.

– Fonseca. Tenho cá uma lista com os nomes dos irmãos do meu avô.

– Deixe-me vêire, pediu-me, modulando a voz em delicioso sotaque de fado.

Concluímos que o avô dela era irmão do meu avô, ambos já falecidos. Somente meia hora nos separava das nossas origens. Não deu para esperar o dia seguinte. Eu, minha mulher, minha mana e meu cunhado deixamos o cansaço de lado e fomos assim mesmo, já começando a negrejar.

Na Freguesia de Paçô, entramos no primeiro bar, falamos sobre o motivo da nossa viagem e o nome da família. Um varão que estava ali perto ouviu nossa conversa e veio até nós. Era o marido de uma prima do meu pai. A partir daí foi tudo sarau e emoção. Para nós e para eles. Tinham até fotos nossas, que a minha tia havia enviado nas suas correspondências.

Conhecermos vários parentes, estivemos no quarto onde o meu avô nasceu, em maio de 1888, mês e ano da Extermínio, por coincidência. Tiramos fotos em frente à igrejinha onde ele foi batizado e onde também se casou com a minha avó.

Atravessamos o Atlântico, rodamos vários quilômetros. Quantos de nós já fizemos façanha semelhante? É a força da ancestralidade que nos move e nos faz sentir orgulho de sobrenomes, que muitas vezes são comuns, uma vez que o nosso. Mas é nosso, secção de uma enxovia de afetividades muito definida na risca do tempo. São os laços de família, muito apertados, muito identificados.

Tempos depois, já no Rio de Janeiro, li no jornal um item do Nei Lopes, compositor e estudioso das culturas africanas, em que ele observava que os afrodescendentes brasileiros não têm sobrenomes africanos, mas portugueses. É que os escravizados acabavam sendo identificados pelos nomes dos seus senhores, uma vez que um certificado de propriedade. E os seus descendentes têm que carregar esses sobrenomes pela vida afora. Porquê é que eu nunca tinha pensado nisso antes?

Os negros eram capturados em regiões diversas da África, com culturas, religiões e línguas diferentes, mas quando chegavam cá viravam uma coisa só: mão de obra, sem pretérito, sem horizonte, sem história. Misturados, apartados das suas famílias, vendidos separadamente dos filhos, mulheres, maridos, amigos.

Os seus nomes de origem eram trocados por outros, muitas vezes com requintes de crueldade, usando o mesmo nome do traficante que os vendeu.

Lembrei-me da minha viagem a Portugal. Talvez tão sofrido quanto a perda da liberdade seja a privação da ancestralidade.

Felizmente, muitos dos nossos irmãos afrodescendentes já perceberam que, agora que o sobrenome é seu, podem, com sua pundonor, fazer dele um motivo de orgulho e não de dor. Honrar esse sobrenome será uma homenagem aos seus ascendentes e não aos senhores deles.

Saber um pouco da história ainda é o melhor caminho para compreender, respeitar e exercitar a empatia em relação aos nossos irmãos afrodescendentes.


Chico Fonseca é redactor e arquiteto, responsável do livro “Amores, Marias, Marés”, publicado pela Editora Pensamento

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